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sábado, 28 de novembro de 2015

A hora da união



De toda a parte chega o segredo de Deus
Eis que todos correm, desconcertados
Dele, porque em todas as almas estão sedentas, chega o grito do aguadeiro
Todos bebem o leite da generosidade divina
E querem agora conhecer o seio de sua nutris
Apartados, anseiam por ver o momento do encontro e da união
A cada nascer do sol oram juntos: muçulmanos, cristãos, judeus
Abençoado todo aquele em cujo coração ressoa o grito celeste que chama 'Vem. Limpa bem teus ouvidos e recebe nítida essa voz'
O som do céu chega como um sussurro
Não manches teus olhos com a face dos homens
Vê que chega o imperador da vida eterna
Se te turvaram os olhos
Lava-os com lágrimas pois nelas encontrarás a cura de teus males
Acaba de chegar do Egito uma caravana de Açúcar
E já se ouvem os sinos e os passos cansados
Silêncio. Eis que chega o rei que vai completar o poema

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Os opostos





Mesmo que te aconteça uma desgraça
Considera com cuidado
Olha bem aquele que te causa esse percalço
A vista que contempla o fluxo e refluxo das coisas boas e más
Abre para ti uma passagem do infortúnio para a felicidade
Vês. Portanto um estado leva-te a outro
O estado oposto gerando-se ao oposto em troca
Se não sofreres temores depois de alegrias
Como podes esperar prazeres depois de desgostos?
Enquanto temes a condenação do anjo da esquerda
Os homens esperam a bênção do anjo da direita
Que possas ganhar duas asas
Um pássaro com uma só asa é impotente para voar
Ao bem intencionado

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Sobre o amor




Através do amor o que é amargo parece doce
Através do amor pedaços de cobre transformam-se em ouro
Através do amor as dores são como balsamos
Através do amor os espinhos se tornam rosas
Através do amor o vinagre vira vinho doce
Através do amor o pelourinho de transforma em trono
Através do amor um revés da fortuna parece boa sorte
Através do amor uma prisão parece um jardim de rosas
Sem amor um jardim parece uma grelha cheia de cinzas
Através do amor o fogo ardente é uma luz agradável
Através do amor o demônio se torna uma huri
Através do amor pedras duras tornam-se macias como manteiga
Sem amor a moliceira de transforma em duro ferro
Através do amor a tristeza é como alegria
Através do amor os vampiros se convertem em anjos
Através do amor ferrões são como mel
Através do amor os leões são dóceis como camundongos
Através do amor a doença é saúde
Através do amor a ira é como misericórdia
Através do amor os mortos ressuscitam
Através do amor o rei torna-se escravo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Não encontrarás



Segura o manto de seus valores pois ele logo desaparecerá
Se o retesa como um arco, ele escapará como flecha
Vê quantas formas ele assume e quantos truques ele inventa
Se está presente em forma, então há de sumir pela alma
Se o procuras no alto do céu, ele brilha como a lua no lago
E entras na água para captura-lo e de novo ele foge para o céu
Se o procuras no espaço vazio, lá está no lugar de sempre
Caminhas para este lugar e de novo ele foge para o vazio
Uma flecha que sai do arco como um pássaro que voa da tua imaginação
O absoluto há de fugir sempre do que é incerto
Escapo daqui e dali para que minha beleza não se prenda a isso ou aquilo
Como o vento sei voar e por amor a rosa sou como a brisa
Também a rosa há de escapar ao outono
Vê como esse eclipse te cerca
Até seu nome se desfaz ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo
Ele te escapará a menor tentativa de fixar sua forma numa imagem
A pintura sumirá da tela
E os signos fugirão de teu coração

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Mundos infinitos



A cada instante a voz do amor nos circunda e partimos em direção ao céu profundo
Por que deter-se a olhar ao redor?
Já estivemos antes por esses espaços e até os anjos os reconhecem
Retornemos ao mestre, que é lá nosso lugar
Estamos acima das esferas celestes, somos superiores aos próprios anjos
Além da dualidade nossa meta é a glória suprema
Quão distante está o mundo terreno do reino da pura substância?
Por que descemos tanto?
Apanhemos nossas coisas e subamos mais uma vez
Sorte não nos faltará ao entregarmos de novo nossas almas
Nossa caravana tem por guia Mustafá, a glória do mundo
Ao contemplar sua face a lua partiu-se em dois pedaços
Não pôde suportar tanta beleza e fez-se feliz mendicante frente àquela riqueza
A doçura que o vento nos traz é o perfume de seus cabelos
A face que traz consigo a luz do dia reflete o brilho de seus pensamentos
Olha bem dentro de teu coração e vê a lua que se despedaça
Por que teus olhos ainda fogem dessa visão maravilhosa?
O homem emerge do oceano da alma como os pássaros do mar
Como há de ser terra seca o lugar do descanso final de uma ave nascida nesse mar?
Somos pérolas desse oceano. A ele pertencemos. Cada um de nós.
Seguimos o movimento das ondas que se arrastam até a terra e então retornam ao mar
E eis que surge a última onda e arremessa o navio do corpo à terra
E quando essa onda regressa naufraga a alma em seu oceano
E este é o momento da união

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eu sou tu


Viemos girando do nada
Espalhando estrelas como pó
As estrelas puseram-se em círculo
E nós ao centro, dançamos com elas
Como a pedra do moinho em torno de Deus
Gira a roda do céu
Segura um raio dessa roda e terás a mão decepada
Girando e girando essa roda dissolve todo e qualquer apego
Não estivesse apaixonada, ela mesma gritaria: 'Basta!'
Até quando há de seguir esse giro?
Cada átomo gira desnorteado
Mendigos circulam entre as mesas
Cães rondam um pedaço de carne
O amante gira em torno de seu próprio coração
Envergonhado ante tanta beleza
Giro ao redor de minha vergonha
Vem. Ouve a música do Sama
Vem. Imite ao som dos tambores
Aqui celebramos
Somos todos a verdade
Em êxtase estamos
Embriagados sim, mas de um vinho que não se colhe na videira
O que quer que se pense de nós, em nada parecerá o que somos
Giramos e giramos em êxtase
Esta é a noite do Sama
Há luz agora!
Luz! Luz!
Eis o amor verdadeiro que diz à mente adeus
Este é o dia do adeus. Adeus! Adeus!
Todo coração que arde nessa noite é amigo da música
Ardendo por teus lábios meu coração transborda de minha boca

Silêncio
Silêncio
Mas feito de pensamento, afeto e paixão
O que resta é nada além de carne e ossos
Por que nos falam de templo de oração, de atos piedosos?
Somos a caça e o caçador
Outono e primavera, noite e dia
O visível e o invisível
Somos o tesouro do espírito
Somos a alma do mundo
Livres do peso que vergasta o corpo
Prisioneiros não somos do tempo nem do espaço
Nem mesmo da terra em que pisamos
No amor fomos gerados
No amor nascemos

domingo, 22 de novembro de 2015

Estou partindo



Fica
Se te interessa
Através dos jardins, através dos pomares
Estou partindo
Meu dia sombria sem sua face
Eis porquê me dirijo agora à chama brilhante no céu
Minha alma corre à frente e diz:
'O corpo é lento demais. Estou partindo.'
Maçãs exalam no pomar de minha alma
Se o perfume me invade me transporta para a colheita das maçãs
Ventos súbitos não me desviarão
Oh montanha de ferro, cada um de meus passos dirige-se ao amado
Minha cabeça rompeu-se com a dor de sua perda
Em busca de uma nova vida, cabeça erguida
Estou partindo
Sou fogo vivo mas pareço betume
Quero ser óleo límpido em tua mão para depor este parto
Pareço imóvel como a montanha, mas sigo pouco a pouco em direção à pequena fresta
Estou chegando
Tocaste a órbita do coração celeste
Agora fica aqui
Pudeste ver a lua nova
Agora fica
Sofreste em excesso por tua ignorância
Carregaste teus trapos para um lado e para o outro
Agora fica aqui
Teu tempo acabou
Escutaste tudo que se pode dizer sobre a beleza desse amante
Fica aqui agora
Juraste em teu coração que havia leite nesses seios
Agora que provaste desse leite, fica.

sábado, 21 de novembro de 2015

Retorna à raiz de ti mesmo


Não te afastes
Chega bem perto
Cria. Não sejas infiel
Encontra o antídoto no veneno
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Moldado em barro, misturado porém a substância da certeza
Tu, guardião do tesouro da luz sagrada
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Ao vislumbrares a dissolução
Serás arrancado de ti mesmo
E libertado de tantas amarras
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Nasceste dos filhos, dos filhos de Deus
Mas fixaste muito abaixo a tua mira
Como pode ser feliz assim?
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

És o talismã que protege o tesouro
E também a mina onde se encontra
Abre teus olhos. Vê o que está oculto
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Nasceste de um raio da majestade de Deus
E carregas a bênção de uma estrela generosa
Por que sofrer nas mãos do que não existe?
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Aqui chegaste embriagado e dócil
Da presença daquele doce amigo
Que com o olhar cheio de fogo, roubou nossos corações
Vem. Retorna à raiz da raiz de ti mesmo

Nosso mestre e anfitrião
Colocou a taça eterna diante de ti
Glória Deus, que vinho tão raro!
Vem. Retorna à raiz da raiz de teu ser

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Não encontrarás




Segura o manto de seus valores pois ele logo desaparecerá
Se o retesa como um arco, ele escapará como flecha
Vê quantas formas ele assume e quantos truques ele inventa
Se está presente em forma, então há de sumir pela alma
Se o procuras no alto do céu, ele brilha como a lua no lago
E entras na água para captura-lo e de novo ele foge para o céu
Se o procuras no espaço vazio, lá está no lugar de sempre
Caminhas para este lugar e de novo ele foge para o vazio
Uma flecha que sai do arco como um pássaro que voa da tua imaginação
O absoluto há de fugir sempre do que é incerto
Escapo daqui e dali para que minha beleza não se prenda a isso ou aquilo
Como o vento sei voar e por amor a rosa sou como a brisa
Também a rosa há de escapar ao outono
Vê como esse eclipse te cerca
Até seu nome se desfaz ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo
Ele te escapará a menor tentativa de fixar sua forma numa imagem
A pintura sumirá da tela
E os signos fugirão de teu coração

O que não somos - aquele lugar




A dor que atraímos transforma-se em alegria
Vem, tristeza, aos nossos braços
Somos nós o elixir dos sofrimentos
Bicho da seda, come as folhas e faz seu casulo
Não possuímos a folhagem dessa terra
Somos nós o casulo do amor
Apenas somos, quando em nada nos tornamos
É quando perdemos nossas pernas, que nos tornamos corredores
Calo minha boca, tirei o resto do poema, de boca fechada

Dentro deste mundo há outro mundo
Impermeável às palavras
Nele nem a vida teme a morte, nem a primavera dá lugar ao outono
Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes
Até mesmo as rochas e árvores exalam poesia
Aqui a coruja transforma-se em pavão
O lobo, em belo pastor
Para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes
E se queres passear por esses lugares, basta expressar o desejo
Fixa o olhar num deserto de espinhos
Já é agora um jardim florido
Vês aquele bloco de pedra no chão?
Já se move, e dele surge a mina de rubis
Lava tuas mãos e teu rosto nas águas deste lugar
Que aqui te prepara um fausto banquete
Aqui todo ser gera um anjo
E quando me vêem subindo aos céus, os cadáveres retornam à vida
De certo viste as árvores crescendo da terra
Mas quem há de ter visto o nascimento do paraíso?
Viste também as águas dos mares e rios
Mas quem há de ter visto o nascer de uma única gota d'água ou uma cintura de guerreiros?
Quem haveria de imaginar essa morada?
Esse céu? Esse jardim do paraíso?
Tu, que ouves este poema
Traduzi-o
Diz a todos o que aprendeste sobre este lugar

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Rubayat 29-3


Entrado no universo sem saber porque, nem de onde
Tal qual a água, queira ou não, afluir
E fora dele como vento em descampado soprando, queira ou não
Sem saber pra onde ir

Entrado no universo sem saber porque, nem de onde
Tal qual a água, queira ou não, afluir
E fora dele como vento em descampado soprando, queira ou não
Sem saber pra onde ir

Entrado no universo sem saber porque, nem de onde
Tal qual a água, queira ou não, afluir
E fora dele como vento em descampado soprando, queira ou não
Sem saber pra onde ir

Entrado no universo sem saber porque, nem de onde
Tal qual a água, queira ou não, afluir
E fora dele como vento em descampado soprando, queira ou não
Sem saber pra onde ir

Entrado no universo sem saber porque, nem de onde
Tal qual a água, queira ou não, afluir
E fora dele como vento em descampado soprando, queira ou não
Sem saber pra onde ir

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Destino do coração



Os olhos foram feitos para ver coisas insólitas
Fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer
O coração foi destinado a embriagar-se na beleza do amigo ou na aflição da ausência
A meta do amor é voar até o firmamento
A do intelecto, desvendar as leis e o mundo
Para além das causas estão os mistérios, as maravilhas
Os olhos ficarão cegos quando virem que todas as coisas são apenas meios para o saber
O amante, difamado neste mundo por uma centena de acusações, receberá no momento da união cem títulos e nomes
Peregrinar nas areias do deserto nos exige suportar beber leite de camelo, ser pilhados por beduínos
Apaixonado, o peregrino beija a pedra negra ansioso por sentir mais uma vez o toque dos lábios do amigo
E degustar como antes o seu beijo
Oh alma, não cunhe as moedas com o ouro das palavras
O buscador é aquele que vai à própria mina de ouro

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Não encontrarás



Segura o manto de seus valores pois ele logo desaparecerá
Se o retesa como um arco, ele escapará como flecha
Vê quantas formas ele assume e quantos truques ele inventa
Se está presente em forma, então há de sumir pela alma
Se o procuras no alto do céu, ele brilha como a lua no lago
E entras na água para captura-lo e de novo ele foge para o céu
Se o procuras no espaço vazio, lá está no lugar de sempre
Caminhas para este lugar e de novo ele foge para o vazio
Uma flecha que sai do arco como um pássaro que voa da tua imaginação
O absoluto há de fugir sempre do que é incerto
Escapo daqui e dali para que minha beleza não se prenda a isso ou aquilo
Como o vento sei voar e por amor a rosa sou como a brisa
Também a rosa há de escapar ao outono
Vê como esse eclipse te cerca
Até seu nome se desfaz ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo
Ele te escapará a menor tentativa de fixar sua forma numa imagem
A pintura sumirá da tela
E os signos fugirão de teu coração

Rubayat 23-49 (1)



Ah, é tudo um tabuleiro de noites e dias
Os homens são peças e o fado temerário
Com elas joga e move e toma e dá o mate
E uma a uma as recolhe, e vai guardar no armário
No céu, a mão esquerda da alvorada
Eu sonho. Na taverna uma voz escuto na algazarra: 'Despertai meus pequenos, e enchei bem o copo antes que seque o vinho da vida em sua jarra'
Façamos o que é mais do que há por fazer antes também que nós ao pó vamos enfim
Pó vai para o pó, sobre o pó vai jazer, sem vinho, sem canções e sem cantor. Sem fim


É tudo um tabuleiro de noites e dias
Os homens são peças e o fado temerário
Com elas joga e move e toma e dá o mate
E uma a uma as recolhe, e vai guardar no armário
Façamos o que é mais do que há por fazer antes também que nós ao pó vamos enfim
Pó vai para o pó, sobre o pó vai jazer, sem vinho, sem canções e sem cantor. Sem fim

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Rubayat 23-49 (2)



Debaixo de um arbusto o pão e uma garrafa de vinho e meus poemas


Tudo que preciso


E tu, que do meu lado cantas um deserto e o deserto se torna então no paraíso

domingo, 15 de novembro de 2015

A Floresta


Na floresta não existe nem rebanho, nem pastor
Quando o inverno caminha, segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta, lhes indica o caminho, com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o pasto das mentes
E o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor


Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber, e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas


Na floresta só existe lembrança dos amorosos
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram, seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar
Dá-me a flauta e canta!
E esquece a injustiça do opressor
Pois o lírio é uma taça para o orvalho e não para o sangue


Na floresta não há crítico nem sensor
Se as gazelas se perturbam quando avistam companheiro, a águia não diz: 'Que estranho'
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho
Ah, dá-me a flauta e canta!
O canto é a melhor loucura e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais


Na floresta não existem homens livres ou escravos
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro, não diz: 'Ele é desprezível e eu sou um grande senhor'
Dá-me a flauta e canta!
Que o canto é glória autêntica e o lamento da flauta sobrevive ao nobre e ao vil


Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem: 'Ele é temível'
A vontade humana é apenas uma sombra que vagueia no espaço do pensamento e o direito dos homens fenece como folhas de outono
Dá-me a flauta e canta!
O canto é a força do espírito e o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis


Na floresta não há morte nem apuros
A alegria não morre quando se vai a primavera
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração
Pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o segredo da vida eterna e o lamento da flauta permanecerá após findar-se a existência

sábado, 14 de novembro de 2015

Não encontrarás




Segura o manto de seus valores pois ele logo desaparecerá
Se o retesa como um arco, ele escapará como flecha
Vê quantas formas ele assume e quantos truques ele inventa
Se está presente em forma, então há de sumir pela alma
Se o procuras no alto do céu, ele brilha como a lua no lago
E entras na água para captura-lo e de novo ele foge para o céu
Se o procuras no espaço vazio, lá está no lugar de sempre
Caminhas para este lugar e de novo ele foge para o vazio
Uma flecha que sai do arco como um pássaro que voa da tua imaginação
O absoluto há de fugir sempre do que é incerto
Escapo daqui e dali para que minha beleza não se prenda a isso ou aquilo
Como o vento sei voar e por amor a rosa sou como a brisa
Também a rosa há de escapar ao outono
Vê como esse eclipse te cerca
Até seu nome se desfaz ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo
Ele te escapará a menor tentativa de fixar sua forma numa imagem
A pintura sumirá da tela
E os signos fugirão de teu coração

Mundos infinitos

A cada instante a voz do amor nos circunda e partimos em direção ao céu profundo

Por que deter-se a olhar ao redor?

Já estivemos antes por esses espaços e até os anjos os reconhecem

Retornemos ao mestre, que é lá nosso lugar

Estamos acima das esferas celestes, somos superiores aos próprios anjos

Além da dualidade nossa meta é a glória suprema

Quão distante está o mundo terreno do reino da pura substância?

Por que descemos tanto?



Apanhemos nossas coisas e subamos mais uma vez

Sorte não nos faltará ao entregarmos de novo nossas almas

Nossa caravana tem por guia Mustafá, a glória do mundo

Ao contemplar sua face a lua partiu-se em dois pedaços

Não pôde suportar tanta beleza e fez-se feliz mendicante frente àquela riqueza

A doçura que o vento nos traz é o perfume de seus cabelos

A face que traz consigo a luz do dia reflete o brilho de seus pensamentos
Olha bem dentro de teu coração e vê a lua que se despedaça

Por que teus olhos ainda fogem dessa visão maravilhosa?

O homem emerge do oceano da alma como os pássaros do mar

Como há de ser terra seca o lugar do descanso final de uma ave nascida nesse mar?

Somos pérolas desse oceano. A ele pertencemos. Cada um de nós.

Seguimos o movimento das ondas que se arrastam até a terra e então retornam ao mar

E eis que surge a última onda e arremessa o navio do corpo à terra

E quando essa onda regressa naufraga a alma em seu oceano

E este é o momento da união 

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Sobre o Amor



Através do amor o que é amargo parece doce
Através do amor pedaços de cobre transformam-se em ouro
Através do amor as dores são como balsamos
Através do amor os espinhos se tornam rosas
Através do amor o vinagre vira vinho doce
Através do amor o pelourinho de transforma em trono
Através do amor um revés da fortuna parece boa sorte
Através do amor uma prisão parece um jardim de rosas
Sem amor um jardim parece uma grelha cheia de cinzas
Através do amor o fogo ardente é uma luz agradável
Através do amor o demônio se torna uma huri
Através do amor pedras duras tornam-se macias como manteiga
Sem amor a moliceira de transforma em duro ferro
Através do amor a tristeza é como alegria
Através do amor os vampiros se convertem em anjos
Através do amor ferrões são como mel
Através do amor os leões são dóceis como camundongos
Através do amor a doença é saúde
Através do amor a ira é como misericórdia
Através do amor os mortos ressuscitam
Através do amor o rei torna-se escravo

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A hora da união



De toda a parte chega o segredo de Deus
Eis que todos correm, desconcertados
Dele, porque em todas as almas estão sedentas, chega o grito do aguadeiro
Todos bebem o leite da generosidade divina
E querem agora conhecer o seio de sua nutris
Apartados, anseiam por ver o momento do encontro e da união
A cada nascer do sol oram juntos: muçulmanos, cristãos, judeus
Abençoado todo aquele em cujo coração ressoa o grito celeste que chama
'Vem. Limpa bem teus ouvidos e recebe nítida essa voz'
O som do céu chega como um sussurro
Não manches teus olhos com a face dos homens
Vê que chega o imperador da vida eterna
Se te turvaram os olhos
Lava-os com lágrimas pois nelas encontrarás a cura de teus males
Acaba de chegar do Egito uma caravana de Açúcar
E já se ouvem os sinos e os passos cansados
Silêncio. Eis que chega o rei que vai completar o poema